❝
Os planos para aquela manhã eram dormir + dormir + dormir + comer + jogão na tv. Dormi feito um bebê, mas agora minha barriga esperneia por comida. E o melhor vem por aí, minha geladeira está totalmente desabastecida. Alguém tem que ir ás compras, que ótimo. Mercantil é sempre uma droga, aliás, tudo de comprar é uma droga. Lojas são uma droga, padarias também, mercantis, tudo isso.. a única vantagem é ter o que comer no final das contas. Olha só, não falei? Olha pra essa fila, cara. Que saco!
Quase voei até o meu lugar quase favorito daquele inferno e enchi as mãos de besteiras. Tudo enquanto: salgadinhos, doces, refri.. Não via a hora de sair dali e ir, finalmente, ver meu jogo. Na pressa gigantesca em que eu estava quase levei uma guria comigo, aliás, melhor voltar né, to com pressa mas não sou nenhum mal educado.
- Foi mal aí, guria..
- Ah tudo bem, eu já peguei as coisas que caíram n.. Tom?!
- Lisa.. é.. Oi?!
(Risos) - O que você tá fazendo aqui, ainda mais.. a essa hora?
Porque raios ela tinha que sorrir, ah não, Lisa.. não gargalha assim não, cara. - Geladeira vazia!
- Ótimo almoço, em? - Ela sorria zombando do meu precioso lanche pela manhã.
- Não é bem almoço, porque.. porque acabei de acordar.
- Bem típico. - (risos)
- É, mas.. como anda a tua vida?
- Normal, bem normal. E a sua?
- Normal não tá, né? - (risos)
- Eu imaginei!
- Escuta, tu não tá a fim de tomar um café, não?
Ela olhava em volta e sorria. - Acho melhor, né.
- Chega aí, então.. - Saí andando.
- Ué, e tuas compras?
- A gente não vai tomar café? Minha barriga tá de boa em esperar até as duas da tarde.
- E encarar essa fila não é bem contigo.
- Pode crer.
- Não é por alí, não?
- Tem uma cafeteria aqui perto.
- Mas a gente sempre tomava naquela lá, vamos lá.
- Faz diferença?
- Tu não sente nem um pouquinho de falta?
- Da cafeteria? - (risos)
- Esquece.
- Sinto falta de uma baixinha dos olhos azuis que é bem bobona. Disso sim, sinto uma falta do caralho.
- Tom..
- Que foi?
- Eu sou o problema?
- Oi?
- Espera, vou falar com o carinha. O de sempre pra ti?
- É.. pode ser.
- Voltei!
- Me responde.
- Ah, tinha haver com problema, não é?
- Eu sou um problema, tom?
- Claro que não. Não lembra o que diziam? Eu era o problema, o nosso grandioso problema. Relaxa!
- Não seja irônico.
- É o que diziam, baixinha.
- E, se quer saber, gente era um problema.
- Era?
- Isso aí.
- E porque ainda quero que a gente seja?
- Um problema?
- Idiota, não faz isso.
(Risos) - Você fica linda sem graça.
- Ah, qual é. Você também sente falta, não sente?
- Deixa eu pensar..
- Que idiota, cara!
- Linda.
- Alguém me deve uma resposta.
- E você me deve um beijo.
- Devo?
- Sim, não se lembra que apostamos?
- O que apostamos?
- Você disse: “nunca mais irei te chamar de idiota sorrindo, porque, a partir de hoje, você é um idiota e isso é muitíssimo sério.” - Eu imitava a vozinha dela e ria.
- Eu não falo assim, ta bom? E você é um idiota mesmo. Só que..
- Que..?
- Não dá pra falar isso sem sorrir.
- Tá vendo? Me deve um beijo.
- Claro que não.
- Sim, me deve sim.
- Você também me deve uma resposta, então estamos quites.
- Posso fazer uma proposta?
- Hum.. talvez.
- Bobona.
- Fala logo.
- Eu te faço me pagar o que deve e você me faz responder o que devo. Fechado?
- Como assim?
- Assim. - E a beija.
- Idiota, mas é idiota. - Ela sorria.
- Linda e sem graça, mas é linda e sem graça. - (Risos)
- Eu já disse que não falo assim. Pára!
- Sinto falta disso.
- Disso? A gente é isso, sr Tom?
- Sinto falta de nós.
Ela olha pro relógio no pulso. - Tenho novidades.
- Fala.
- Alguém perdeu o jogo do seu time e outro alguém precisa ir pra aula de violão.
- Aula? Você tá pagando um cara pra te ensinar a tocar violão?
- Ué, é o que parece.. - (risos)
- Eu te ensino, vem!
- Mas..
- Sem mas, dona Lisa.
- Não vou ficar vendo jogo contigo, olha lá em..
- O jogo já acabou faz eras, larga de birra, tá louca pra vir.
- Ah é? Então vai sozinho, bonitão.
- Anda logo, Lisa.
Ela tava parada no meio da rua com aquele bico, na maior birra do mundo.
- Tu não vai vir?
- Não.
- Então tá, tchau. - Saí andando, e nada de Lisa me acompanhando.
Olhei pra trás, ela tava no mesmo lugar, sem ter se movido um passo sequer.
- Quantos quilos tu pesa?
- O quê?! - (risos)
Peguei ela no braço e levei-a até minha casa.
- Caralho, precisa esmurrar minhas costas desse jeito?
(Risos) - Até que não foi nada mal, me leva de volta assim?
- Nem fodendo. - (risos)
- Tu não vai entrar?
- To esperando me convidar.
Puxei ela pela cintura.
- Não me faça morder esse bico, por favor.
Ela ria. - Tu é bonitinho tentando me divertir.
- Bonitinho?
(Risos) - Lindo, tesão, bonito e gostosão.
- Não tira muita onda porque se pá desisto de te ensinar.
- Ah nem, não vim até aqui pra nada.
- Nem a sola do sapato tu gastou pra vir aqui, larga de bobeira.
(Risos) - Já te pedi pra me levar de volta do mesmo jeito?
- Bobona define.
- Cadê o violão?
- Ali.
Ela sentou na cama e o colocou no colo.
- Me mostra o que sabe fazer.
Ela sabia muita coisa, até mais que imaginei. Primeiro tocou uma música simples, mas no fim atingiu pontos super fodas.
- Caralho!
- Escuta, tenho uma surpresa.
- É? o quê?
- Olha a música que aprendi a tocar.
Ela tocou mr. right. Era a música que eu tinha tocado pra ela pouco antes da gente terminar. Cara, ela ficava tão linda assim. Arriscava um pouco do refrão. Que foda! Eu me amarrava até nos erros que ela cometia com o violão, eu gostava até da voz bonitinha dela ficando engraçada ao desafinar.
- Maybe i’m your Mr. Right. Baby, maybe i’m the wrong you like.
Ela ria, e arriscava um pouco mais. - Maybe i’m a shot in the dark and you’re the morning light.
- Maybe this is sad but true..
- Baby, maybe you’ve got nothing to lose.
- You could be the best of me..
- .. when I’m the worst for you.
Ela parou de tocar, ficamos em silêncio nos encarando. Eu pensando no quanto eu queria beijá-la, e no quão bom era ter ela ali novamente. Ela pensando sabe Deus em quê.
- Tom..
Eu não me aguentei por mais nem um segundo. Beijei-a!
- É tão bom te ter de novo, Lisa.
- É.. eu.. preciso ir.
Ela se levantou, andou até a porta e se despediu com a mão ao me ver na porta do quarto.
- Espera!
Ela já tava meio longe, tive que correr até acompanhá-la.
- O que foi?
Eu poderia ter dito tudo, tudo mesmo. Que sentia saudade, que ela deixava um buraco aberto toda vez que fazia isso. Que dava as costas e ia embora. Eu devia ter dito que a amava e além de querer, precisava que ela ficasse. Que quando eu quase superava ela sempre aparecia, e isso era bom, mas ter que me despedir de novo seria sempre ruim. Que eu queria a gente de novo, outra vez, e por muito tempo ainda. Mas, ao invés disso, sorri de lado e fiz a pior merda da minha vida: - Foi bom te ver de novo!
Ela só assentiu com a cabeça e continuou a andar.
E eu a perdia. De novo.